08.03.08
O desacordo ortográfico: factos e vigarices
Posted by APD under Portugal, Português, educação, liberdade1 - «As modificações propostas no acordo devem alterar 1,6 por cento do vocabulário de Portugal, de acordo com especialistas.»(*)
2 - «No Brasil, a mudança será menor, porquanto apenas 0,45 por cento das palavras terão a escrita alterada.»(*)
Este cálculo deve ter sido feito por algum burocrata ministerial, munido de seu típico lápis sebento, entalado entre a orelha e o cabelo não menos sebento; lá rabiscou uns números a olho, muito concentrado, mordendo a língua, num qualquer caderno escolar de linhas azuis, mas tudo assim muito por alto, ora xacáver ó Zé, pertantes, isto palavras no total deve dar, vá lá, umas 300 mil; ora, alteradas devem ser aí umas 1.350, ou assim; pertantes, 1.350 a dividir por 300 mil, dá… 0,45%! Pronto. O Brasil já está. Agora o Português de cá. Ó Manel; diz lá aí quantas palavras é que mudam em Português do nosso. Quantas? Ah. Bem. Agora, pertantes, faz de conta que são as mesmas 300.000, ora as tais 4.600 palavras que mudam dá… pimba: 1,6%. Fixe. Cá está. Toma aí nota, ó Manel: 1,6%.
Deixemos por agora estes complexos cálculos e seus compenetrados especialistas em paz, retiremo-nos discretamente, e examinemos ainda que ao de leve os resultados de tão exaustivo labor.
Se nos mantivermos na mesma lógica de merceeiro, convenhamos que 1,6% é, em rigor, mais do que o triplo de 0,45%; ou seja, como é evidente, o Português europeu perde três vezes 1.500 mais 100 palavras do que o Português do Brasil, com este acordo ortográfico. Isto, repita-se, apenas numa perspectiva de merceeiro, isto é, quantitativa, porque se virmos a coisa de um ponto de vista qualitativo e funcional, então fácil será concluir que nos aproximamos do desastre, em termos “negociais”. Se isto é “negócio” que se apresente, bem podem os nossos negociadores limpar as mãos à parede.
Os dois parágrafos que se seguem foram redigidos com a preocupação de, caso suceda alguma pessoa de nacionalidade brasileira os ler, mesmo sendo isso altamente improvável, possa entender claramente o que se pretende transmitir.
Com esta revisão, com este novo acordo ortográfico, nenhum significado se perde, altera ou se torna passível de confusão, definitiva e radicalmente, em qualquer étimo brasileiro ou em palavra alguma com grafia específica do Brasil. Porém, o mesmo não se pode dizer a respeito de uma série de palavras extremamente significativas, marcantes, relevantes e de uso corrente, vulgar, comum, no quotidiano do Português (Língua) e do Português (cidadão) europeu; como são os casos, para citar apenas alguns exemplos (daqueles que toda a gente em Portugal conhece), de “facto”, “baptismo”, “acção”, “humidade” e “óptimo”, com todas as formas verbais, adjectivais ou quaisquer outras que delas e de outras se possam (podiam) formar. “Fato”, em Portugal, tem apenas um significado: calça e casaco de cerimónia. “Terno”, no Brasil, significa o mesmo que “fato” em Portugal mas, pelo contrário, “terno”, do lado de cá, quer dizer “carinhoso, meigo, afectuoso” (entre outras coisas).
Os exemplos são inúmeros e conhecidos. Seria fastidioso e repetitivo continuar a martelar, uma e outra vez, sempre na mesma coisa. Toda a gente sabe que este acordo ortográfico não passa de um expediente para que as editoras brasileiras possam aviar (vender, despachar) as suas edições, não apenas em Portugal mas, ou principalmente, em Angola e nos restantes PALOP (países africanos de Língua oficial portuguesa). Bem, para isso e também para que possam exportar mais facilmente os seus professores, as suas telenovelas, os seus médicos, os seus dentistas, os seus futebolistas, os seus políticos, as suas “garotas de programa”, enfim, estados federais inteiros, em massa, para a Europa e para a África.
Fim dos dois parágrafos para brasileiros. Roga-se o favor de, em sendo do lado de lá do Atlântico, abster-se de ler a partir daqui. ‘Brigadinho, viu?
Os interesses do povo brasileiro são tão legítimos como os do povo português. A forma como os dirigentes de um e de outro tratam e promovem esses interesses, isso é que está aqui em causa, com este acordo ortográfico. Os brasileiros fazem pela vida dos seus, tentam aproveitar ao máximo, conseguir o máximo e defender o máximo pelo seu país; os portugueses, pelos vistos, tentam vender o máximo, esbanjar o que puderem apenas para aparecer na fotografia e conseguir o máximo para si mesmos enquanto puderem. Ou é isso, ou são apenas incompetentes, estúpidos e desleixados.
Traidores, não. Talvez não. Carecem de inteligência. E nasceram já sem memória alguma.
Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m’a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.